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Conclusões sobre a com+vivência no amor PDF Imprimir E-mail
Escrito por D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID   

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
27 de janeiro de 2004


(As seguintes ilações podem ser encontradas no nosso livro:

“Preparação para o Casamento e para a vida familiar”, ps. 69-73)

 

Diante das sublimes exigências da paternidade-maternidade responsável estamos, evidentemente, diante de um ideal elevadíssimo. Esse ideal admite graus e etapas de amadurecimento: físico, psicológico, afetivo e espiritual. Pastoralmente falando, não se pode em nada minimizar a doutrina da Igreja, mas isto estará aliado à caridade, paciência e compreensão de que o próprio Cristo, “autor da vida” (At 3,15), nos dá o mais sublime exemplo, ao tratar com os homens. É preciso ser intransigente com o mal, mas misericordioso e compassivo para com todos os que erram, máxime, não querendo errar.

A paternidade-maternidade responsável não se reduz ao planejamento familiar, mas o implica:

Compete aos pais decidir sobre o desejável em relação ao número de filhos. É o aspecto mais pessoal da intimidade conjugal, assumido diante de si próprios, dos filhos já existentes, diante da comunidade e, sobretudo, diante de Deus.

Não se pode partir do princípio de que o controle voluntário da fecundidade deve separar a sexualidade da procriação: anular a fertilidade para liberar a sexualidade. Não se trata de um problema como se fora mecânico ou matemático. Está em jogo a própria natureza do homem e da mulher com sua dignidade própria, independente de ser fértil ou não. Há que conhecer e respeitar esta dignidade!

Frente às campanhas antinatalistas (sob o nome de paternidade responsável, bem-estar da mulher e da criança!) de origem governamental ou promovidas por outros países, proporcionem-se às famílias conhecimentos suficientes sobre os múltiplos efeitos negativos das técnicas imperantes nas filosofias neomalthusianas e proceda-se à aplicação integral das normas éticas, clara e repetidamente enumeradas pelo Magistério.

Em face do grandioso plano de Deus a respeito da família, a ser seguido e abraçado pela paternidade-maternidade responsável, a nossa pergunta não deverá ser: quantos filhos devemos ter? Mas, sendo que o ser humano é tão precioso e de tamanho valor, nos perguntamos: será que somos dignos de ter pelo menos um? Nossa pergunta se amplia: o relacionamento homem-mulher, o convívio familiar, favorece ou abstacula a visão e aceitação desse plano de Deus?

Não basta a visão da Fé. É preciso também, tirar todas as conseqüências que a Fé nos pede: a vivência de uma autêntica espiritualidade conjugal familiar, o respeito pela integridade total do outro, um perfeito domínio sobre si mesmo através de uma ascese que nos purifica e aprimora. Cabem aqui as sábias observações da Encíclica de Paulo VI, a “Humanæ Vitæ” (1968):

“Esta disciplina... longe de ser nociva ao amor conjugal, confere-lhe, pelo contrário, um valor humano bem mais elevado. Requer um esforço contínuo, mas, graças ao seu benéfico influxo, os cônjuges desenvolvem integralmente a sua personalidade, enriquecendo-se de valores espirituais: ela acarreta à vida familiar frutos de serenidade e paz e facilita a solução de outros problemas. Favorece a atenção dos cônjuges, uma para com o outro, ajuda-os a extirpar o egoísmo, inimigo do verdadeiro amor, e enraíza-os no seu sentido de responsabilidade”.

Para conseguir amadurecer para a paternidade-maternidade responsável, é imprescindível e urgente criar um clima, um ambiente favorável à castidade.

Queremos, nesta altura, chamar a atenção dos educadores e de todos que desempenham tarefas de responsabilidade em ordem ao bem comum da convivência humana, para a necessidade de criar um clima favorável à educação para a castidade, isto é, ao triunfo da liberdade sã sobre a licenciosidade, mediante o respeito de ordem moral.

Tudo aquilo que nos modernos meios de comunicação social leva à excitação dos sentidos, ao desregramento dos costumes, bem como todas as formas de pornografia ou espetáculos, deve suscitar a reação franca e unânime de todas as pessoas solícitas pelo progresso da civilização e pela defesa dos bens do espírito humano. Em vão se procurará justificar estas depravações, com pretensas exigências artísticas ou científicas, ou tirar partido, para argumentar, da liberdade deixada neste campo por parte das autoridades públicas.

Paternidade-maternidade responsável é um contínuo crescimento a partir do cultivo das virtudes humanas (altruísmo, delicadeza, sensibilidade, respeito, educação dos sentimentos e emoções), passando pelo aprimoramento das virtudes morais (p. ex. ascese, castidade, justiça, prudência, temperança) para desembocar no exercício de virtudes propriamente espirituais e cristãs: fé em Deus e força dos sacramentos, esperança de localizar-se bem no plano de Deus com o auxílio constante de sua graça, caridade sobrenatural que exprime e desenvolve o amor numa perspectiva de fraternidade entre os próprios esposos, o que é a “plenitude de qualquer lei” (Cl 3,14), “supera todo o entendimento” (cf. Ef 3,18-20) e nunca há de acabar... nem mesmo na Eternidade (1Cor 13,8).

Como é fácil averiguar, pelo exposto, a paternidade-maternidade responsável apelam para a santidade dos esposos a que são chamados por vocação e pela graça do sacramento do Matrimônio. Pede-se deles, que seus lares sejam “igrejas domésticas”, que con-sagrem os seus próprios corpos como “templos do Espírito Santo” (1Cor 6,19) e se lembrem da união de Cristo com sua Igreja de que a vida familiar participa e que reflete” (cf. Ef 5,31-32).

A Igreja conhece o caminho pelo qual a família pode chegar ao coração de sua verdade profunda. Este caminho que a Igreja aprendeu na escola de Cristo e da História, interpretada à luz do Espírito, não o impõe, mas sente a exigência indeclinável de o propor a todos sem medo, com grande confiança e esperança, sabendo, porém, que a “Boa-Nova” conhece a linguagem da Cruz. É, no entanto, através da Cruz que a família pode atingir a plenitude do seu ser e a perfeição do seu amor.

O caminho dos esposos, como toda a vida humana, conhece muitas etapas, e as fases difíceis e dolorosas, vós o experimentais pelos anos afora, também aí têm o seu lugar. Mas importa dizê-lo em voz alta: jamais a angústia e o medo deveriam achar-se em almas de boa vontade, porque, enfim, não é o Evangelho uma Boa Nova também para os lares e uma mensagem que, se é exigente, nem por isso é menos profundamente libertadora?

Tomar consciência de que ainda se não conquistou a liberdade interior, de que ainda se anda sujeito ao impulso das próprias tendências, descobrir-se quase incapaz de respeitar, no momento, a lei moral, num domínio tão fundamental, suscita naturalmente uma reação de aflição. Mas é o momento decisivo em que o cristão, na sua confusão, em vez de se abandonar à revolta estéril e destruidora, acede, na humanidade, à espantosa descoberta do homem diante de Deus, um pecador diante do amor de Cristo Salvador.

A paternidade-maternidade vai bem além da doação no amor e, mesmo, da transmissão da vida:

A fecundidade de amor conjugal não se restringe somente à procriação dos filhos, mesmo entendido em sua dimensão mais especificamente humana: alarga-se e se enriquece com todos aqueles frutos de vida moral, espiritual e sobrenatural que o pai e a mãe são chamados a doar aos filhos e, através dos filhos, à Igreja e ao mundo. Esta responsabilidade inclui, portanto, a educação da Fé e na Fé para um pleno desabrochar na caridade. Terá que evidenciar para os filhos, mais pelo exemplo que por palavras, o plano de Deus a respeito deles e o verdadeiro “sentido da vida”.

A paternidade-maternidade responsável há de levar a família bem constituída a ser apóstola para outras famílias em dificuldade, crises ou sem esta visão cristã do amor, da sexualidade e do próprio casamento. Serão, por excelência, os apóstolos da Pastoral Familiar mais sólida e abrangente. Será esta uma dimensão de missão evangelizadora da Família, tão encarecida pela exortação “Familiaris Consortio” e por Puebla.

Após todas estas considerações esperançosas e alegres, vem a nossa questão prática mais difícil para o exercício da paternidade-maternidade responsável: como incluir esta visão cristã de amor, de sexualidade, de fecundidade em ambientes desumanizados pelo erotismo, pela promiscuidade e pela miséria em suas diversas dimensões? É aqui que se localiza o maior papel desafiante da Pastoral da Família. Partindo de uma convicção vivida e testemunhada, há que envolver, contagiar a outros na mesma perspectiva de fé e de vida. Nossa preocupação maior será a de formar lideres e agentes da Pastoral Familiar que saibam penetrar em qualquer ambiente, saibam falar a linguagem do Evangelho em qualquer ambiente de opressão ou de comunicação.

Os ideais do Evangelho, de que dimanam diretamente os ideais da família, se destinam “a toda criatura” (Mc 16,15). Fará parte da responsabilidade familiar envidar esforços para transformar esses ambientes desumanizados, arrancar as famílias dos traumas da crise, eliminando quanto possível, a miséria moral e material. Neste seu empenho, a Pastoral da Família deverá estar, de modo muito especial, entrosada com as demais linhas da “Pastoral de Conjunto”! Não é por ser difícil que não se vai tentar, começando logo. Cristo nos garante: “Para Deus (e para Sua causa) nada é impossível!” (Lc 1,37).

 

Disponibilizado pela Arquidiocese do Rio de Janeiro em Jan/04