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Deus é um delírio? PDF Imprimir E-mail
Escrito por Dom Eduardo Benes   
O fundamentalismo ateísta tem na recente publicação de Richard Dawkins, "Deus, um delírio", biólogo em Oxford, seu mais novo defensor.  O autor vê a religião como uma espécie de neurose coletiva, fruto de uma debilidade intelectual que, além de inibir, coíbe o desenvolvimento científico. Nutre ainda o autor a pretensão de que sua obra possa tornar ateus, pela via argumentativa, seus leitores, que dela se aproximarem com "isenção". Donde, pois, a importância de levar a todos uma reflexão que os ajude a enfrentar tais "argumentos", mostrando ser falsa a "cientificidade" de grande parte dos questionamentos levantados por Dawkins, o que compromete de algum modo toda sua obra, e, conseqüentemente, a seriedade científica do autor. Em refutação a alguns dos argumentos nela enunciados, Alister MacGrath e Joanna McGrath, ambos pesquisadores de Oxford, publicaram um opúsculo - "O delírio de Dawkins"- no qual questionam a autoridade e a sanidade do colega de trabalho. Afirmam: "Deus, um delírio é uma obra teatral, em vez de acadêmica: uma investida feroz e retórica contra a religião"; e ainda: "seu autor parece ter feito a transição de um cientista, com apaixonada preocupação com a verdade, para um grosseiro propagandista anti-religioso, que revela claro descuido pela evidência". Finalizam: "o ateísmo deve estar mesmo em uma situação lastimável, se seu principal defensor precisa depender tão ostensivamente - e tão obviamente - do improvável e do falso para sustentar seu argumento".

Deus, um delírio não propõe o novo ao afirmar que a idéia de Deus é como um vírus que infecta mentes saudáveis; seu autor já o havia dito nos anos 1990. O casal MacGrath, no entanto, reflete: "os vírus biológicos não são apenas hipotéticos: eles podem ser identificados, observados e sua estrutura e modos de operação determinados". Assim sendo, a teoria de Dawkins parece carecer de embasamento empírico; nada mais contraditório para um cientista moderno. Se não bastasse o abuso de falácias que se multiplicam ao longo da obra, o biólogo de Oxford ataca o Deus cristão diretamente e sem compostura alguma: "o Deus do Antigo Testamento é, talvez, o personagem mais desagradável da ficção", adjetivando-o como segue: "ciumento e orgulhoso; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homo-fóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sado-masoquista, malévolo". Resume e define-o como "insípido" e "enjoativamente nauseante".

Falta a Dawkins a perspectiva filosófico-teológica quando migra do campo específico das ciências empíricas para a área das questões filosóficas e religiosas.  Levanta ainda hipóteses gratuitas sobre a atuação de Jesus. Para ele Jesus, por fidelidade às tradições judaicas, teria sido hostil a algumas pessoas, especialmente os forasteiros e estrangeiros. Dawkins afirma: "Foi Paulo quem inventou a idéia de levar o Deus judeu aos gentios"; e finaliza com desdém: "Jesus teria se revirado no túmulo se soubesse que Paulo estava levando seu plano aos porcos". Educadamente Alister MacGrath e Joanna McGrath observam: "a excessiva confiança de Dawkins na retórica, em vez de firmar-se na evidência, indica claramente que algo está errado em seu argumento", e perguntam, em tom afirmativo: "não seria o ressurgimento inesperado da religião capaz de convencer muitos de que o ateísmo em si é fatalmente deficiente como visão de mundo?"

Enganam-se os que pensam que o "delírio" de Richard Dawkins é capaz de silenciar as pessoas de fé. Além dos colegas de trabalho, outro baluarte da pesquisa científica se manifesta contra esta espécie de fundamentalismo ateu. Francis S. Collins, biólogo e diretor do projeto que decifrou o código genético humano, em "A linguagem de Deus", não apenas apresenta, a partir da ciência, indícios da existência de Deus, como narra sua conversão do ateísmo para a fé em Deus. Mais importante: não apenas cria uma ponte de diálogo entre a religião e a ciência, como também mostra a harmonia entre elas.

Longe de silenciar os lábios e os corações dos que crêem em Deus - como o deseja Dawkins -, o avanço das ciências faz brotar com mais intensidade ainda, no coração do mundo, a admiração e o louvor da sabedoria divina impressa na criação, obra amorosa de Deus confiada ao ser humano, sua criatura predileta. São muitos os cientistas que, em razão da inteligibilidade do universo, condição de possibilidade da própria ciência, se abrem para a fé em Deus Criador. Concluo com a palavra do Livro da Sabedoria sobre os que negam Deus: "foram incapazes de conhecer Aquele que é a partir das coisas visíveis" - objeto de pesquisa -, "e, olhando suas obras, não reconheceram o artífice"(Sab 13,1). E "Os céus narram sua glória"(Sl 19,1).

* A presente reflexão teve a colaboração do Pe. Rodolfo Gasparini Morbiolo ( Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. )

 * Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues é arcebispo de Sorocoraba (SP)