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GREVE DE FOME E FOME DE ÉTICA PDF Imprimir E-mail
Escrito por Elbson do Carmo   
Temos recebido dezenas de mensagens tratando de um mesmo assunto nas últimas semanas: a já conclusa greve de fome do bispo de Barra (BA), D. Luiz Cappio. Algumas mensagens tratam da própria transposição do Rio São Francisco, que doravante, esperamos, será objeto de um debate mais amplo. Outras mensagens, e por sinal a maioria, tratavam do gesto do bispo em si – a greve de fome. Todas as mensagens, entretanto, foram unânimes em questionar se uma greve de fome não ia na contramão do valor que a Igreja mais busca resgatar nesse princípio de milênio, o valor da vida. Exemplificando: O bispo católico poderia morrer de fome na defesa de sua causa, entretanto um moribundo, segundo a mesma Igreja, não poderia autorizar uma eutanásia. A questão não pode ser analisada de forma tão simplista, entretanto, é de silogismos simplista que se aproveitam os inimigos da Igreja para semear a confusão.

O problema em tela não é simples de ser equacionado, pois se por um lado as motivações de D. Cappio foram as mais sublimes possíveis, tendo em conta o verdadeiro crime contra a vida   traduzido na forma como essa obra seria feita, por outro, o veículo de protesto adotado pelo bispo  causa perplexidades. É preciso ter em conta que o bispo, no seu gesto isolado, em nada traduz a posição da Igreja acerca do assunto. Dar a vida pelo irmão não é o mesmo que provocar a própria  morte pelo irmão. Dessa forma, fazer uma greve de fome até a morte, se preciso, não é de jeito algum o que se possa chamar de uma forma cristã de luta, não pode ser admitida como uma forma lícita de protesto, tendo em conta que a vida é dom de Deus, a ninguém é dado o direito de tira-la sob qualquer alegação, por mais justa que seja. Muito embora seja impossível ignorar que uma greve de fome seja uma forma de luta muito corajosa em defesa de um ideal, principalmente quando se trata de um ideal humanitário e coletivo como foi o caso. E não é difícil imaginar quanta convicção é necessária para levar a cabo uma greve de fome até a morte. Entretanto, quando encaramos o tema sob uma ótica cristã, por mais corajosa que seja uma greve de fome, ela perde legitimidade diante da fé cristã quando tem a morte como seu desfecho provável, mesmo que esse não seja o objetivo de quem a executa.

D. Cappio certamente acertou na escolha de sua bandeira, muito embora tenha errado no seu veículo de protesto. A transposição do Rio São Francisco não possui sequer estudos de viabilidade econômica, não recebeu apoio de nenhum organismo internacional. O impacto ambiental sequer foi mensurado, tendo em conta que não se pode transpor um rio de tamanha magnitude sem que isso tenha impacto no meio-ambiente. Com base no projeto original, a água simplesmente não chegará ao semi-árido, ou seja, as cenas que nos são tão familiares, de crianças esquálidas, bebendo água barrenta em regiões desérticas, continuariam as mesma. A água da transposição passaria por grandes cidades, e seria destinada à agro-indústria principalmente. Ou seja, depois de séculos de discussão, a proposta final de transposição do “Velho Chico” seria excludente. Teríamos água para gado e lavouras, mas as populações da região continuariam morrendo de sede, e fome.

O que mais impressiona é o mais absoluto silêncio do governo do PT. Sob quais motivações o governo empregaria mais de 4 bilhões de Reais numa obra de tamanho vulto, cercada de tanto silêncio? É certo que antes da greve de fome de D. Cappio o Brasil sequer se deu conta de que o São Francisco seria transposto definitivamente. E, espera-se, que os brasileiros, agora passem a  tentar compreender por quê as populações que margeiam o rio não desejam sua transposição,  sem que o mesmo seja antes revitalizado. O grande problema é que uma revitalização pode demorar anos, e isso certamente contraria interesses mais imediatos, o que conduz à desconfiança de que o governo do PT não cumprirá as promessas que motivaram o bispo a terminar sua greve de fome.

Na esteira de comentários a respeito da grave de fome de  D. Cappio, há de se destacar a crítica de uma parcela da imprensa que sequer sabe ao certo do que trata a transposição do São Francisco, e mesmo assim tentou transformar a luta do bispo num número circense,  focalizando a sua greve de fome enquanto religioso católico, e deixando completamente desfavorecida uma discussão mais urgente e avassaladora, que é a situação do povo que depende do rio para sobreviver. Essa mesma imprensa certamente daria contornos muito mais épicos ao protesto, caso não se tratasse de um bispo católico. Ignoram o apoio corajoso de diversas outras denominações religiosas e de diversos movimentos sociais à causa de D. Cappio. Saliente-se que, algumas dessas mesmas denominações religiosas somaram côro à CNBB, ao afirmar que eram contra a greve de fome até a morte, mas solidárias à causa de D. Cappio, que encarnava o grito de protesto desesperado das populações ribeirinhas. Todos esses apoios não focalizaram o gesto do bispo em si, ou mesmo sua condição de religioso católico,  mas a sua causa, que é heróica sem dúvida. Em contraponto, antes da greve de fome do bispo, nada se viu na grande imprensa a respeito da transposição do São Francisco.

Essa parcela  da imprensa, sempre monódica e enfadonha  ao referir-se à Igreja Católica, sobre qualquer assunto, prestaram um grande desserviço ao Brasil, pois ao invés de analisar a questão de forma desapaixonada e sem preconceitos, focalizando em densidade o grave problema da transposição do São Francisco, que foi o motor do jejum voluntário de D. Cappio, preferiu  a crítica vazia, e dirigiram contra o bispo seus gracejos e comentários mais primários. Essa parcela da imprensa certamente fez o mesmo jogo de todos aqueles que desejam que a transposição do São Francisco seja forçada “garganta abaixo” do povo brasileiro sem qualquer debate mais amplo. Com base nesse exemplo pífio de parcela da imprensa brasileira, chegamos à conclusão que ainda há espaço demais para a estupidez transvestida de informação.