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Louvado Sejas pela Irmã Morte PDF Imprimir E-mail
Escrito por Elbson   


D. Eusébio Oscar Scheid
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro


A Igreja comemora, no dia 2 de novembro, a memória dos Fiéis Defuntos. Uma comemoração que surgiu em ambiente monástico, no século X, idealizada pelo abade Santo Odilon, de Cluny em 998, decretando a celebração logo após a festa de Todos os Santos.
Foi o Papa Pio X quem deu ao dia dos mortos o nome de “grande festa das pobres almas”, permitindo que cada sacerdote celebrasse três missas nesse dia.
No dizer de São Francisco, a morte é nossa irmã e vem a todos, ao fraco e ao forte (“Cântico das Criaturas”). Porém, o homem sempre teve e tem dificuldades em aceitá-la. Ela encerra em si um mundo desconhecido.

Jesus sempre falou de sua morte, abertamente. Quando tratava da felicidade definitiva, das moradas na Casa do Pai, da promessa de voltar para buscar os seus discípulos e em tantas outras ocasiões em que expressou a beleza da vida eterna, transmitia confiança e serenidade. Ser discípulo de Cristo é demonstrar igual sentimento e comprovada fé.
Neste dia em que celebramos os fiéis defuntos, até mesmo essa nova palavra que parecia ter um lúgubre e tristonho sentido, se ilumina por causa de seu significado: “de-functo” – aquele que cumpriu sua função,  sua missão na terra.

A alma, com a qual Deus nos distinguiu e que, unida ao corpo, nos torna pessoas, é eterna e imortal. O corpo recebeu nas águas lustrais do batismo sua mais importante consagração, foi ungido com o óleo do crisma e mais tarde alimentado com o Corpo e o Sangue de Cristo; é sacrário vivo. Por isso, o respeito a ele devido nos leva, neste dia de Finados, a considerar com devoção sua função.

Alguns, por falta de fé, dão à morte uma dimensão de fatalidade, de desgraça ou de um determinismo materialista; outros, que pensam ter fé, procuram soluções para “resolver” os mistérios da vida no além. É o caso dos que acreditam em reencarnações em suas mais diversas variações. Chegam até mesmo a determinar leis para provar suas crendices. Outros, ainda, por não crerem em nada, apregoam soluções românticas e até mesmo os famosos e lamentáveis suicídios filosóficos.

Quem crê na vida eterna deve aguardar o momento de sua partida para a Casa do Pai como um ponto de encontro esperado há tempo e com muita alegria. Na Sagrada Escritura são muitas as imagens positivas do momento da morte e sempre está presente a consolação de Deus. Cristo usou figuras de festa para demonstrar a vida eterna como banquete, festa de casamento, etc.

Nas Catacumbas romanas se encontram os mais impressionantes testemunhos de fé na Ressurreição. A vida em Deus é amplamente divulgada e em todos os lóculos e nos nichos onde se depositavam os corpos dos cristãos. É até mesmo possível reconstituir a vida de muitos dos primeiros cristãos somente pelas inscrições nas catacumbas. Ali não se encontram somente mártires, mas piedosos cristãos que desejavam ser sepultados junto aos mártires. Com esse testemunho de fidelidade a Cristo, a Igreja se fortalecia cada vez mais.
Se eles, em época de perseguição e em tempos de grandes dificuldades, viveram sua fé de modo tão inaudito, o quê dizer, hoje, de nossa crença e de nossas convicções sobre a vida e a morte?

Percorrendo as alamedas dos nossos cemitérios, encontraremos igualmente expressões de muita piedade e demonstrações de confiança. Um simples “descanse em paz”, tão comum, revela fidelidade a Deus.

Um autor da Renascença inglesa, John Doone, sacerdote anglicano, deixou alguns sermões que o tornaram famoso. Em um deles, intitulado “Por quem dobram os sinos?”, título usado até para um filme, ele vai demonstrando os diversos toques nos campanários: uns anunciam nascimento, outros, casamento, outros falecimentos. Em todos eles, afirma o autor, são toques que nos dizem respeito porque pertencemos a uma comunidade de fé.
Santos e literatos tentaram descrever o céu e a vida eterna com as mais diferentes ilustrações. São as necessidades humanas que buscam imagens visíveis do invisível. O próprio São Paulo nos dá uma idéia da impossibilidade de uma explicação: “O que os olhos nunca viram, o que os ouvidos nunca ouviram, nem o que jamais passou pelo coração do homem, Deus preparou para aqueles que o amam” (1Cor 2,9).

Para se ter morte santa, importa viver uma vida digna, honesta. Mesmo que ela chegue improvisamente, nos encontrará sempre preparados para ir ao encontro do Pai.
Na constante busca da santidade, o dia dos Finados nos leva a uma profunda consideração sobre outras mortes. São as renúncias do dia-a-dia, quando por um bem maior buscamos nos esquecer de nós mesmos; as superações de dificuldades de relacionamentos, como diz São João: “Passamos da morte para a vida, quando amamos o irmão” (1Jo 3,14) e todas as possibilidades de superações de conflitos. A morte física é inevitável, enquanto que a morte aos meros sentidos humanos, nos leva a capacitação espiritual sempre maior.

No prefácio da Missa dos mortos, regamos que a “vida não é tirada, mas transformada”. A fé nos leva a essa contemplação, pois, no Cristo brilhou para nós a estrela da esperança, na feliz ressurreição. Considerando essa vida nova em Cristo, vivendo com ele o definitivo, procuremos entender a festa que se celebra. Verdadeiramente festa, apesar das lágrimas e das saudades. Uma festa plenamente espiritual, portanto, onde os valores cristãos são vividos em sua dimensão mais elevada e profunda.

O Santo Padre, ao entregar mais um grupo de Mistérios do Santo Rosário, os Luminosos, nos oferece a possibilidade de ampliar nossa súplica à Virgem Maria por mais cinqüenta vezes ao dizer: “Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”. Que Ela esteja presente para nos acompanhar rumo à Pátria definitiva: quando passamos do momento mortal para a imortalidade, da condição terrena e passageira para a posse da realidade eterna e feliz, na glória do Pai.

Disponibilizado no Amai-vos