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Fátima - O milagre do sol PDF Imprimir E-mail
Escrito por Elbson Araujo   

O «milagre do sol» veio dar crédito às aparições de Fátima. Foi testemunhado por milhares de pessoas que se encontravam, no dia 13 de Outubro de 1917, na Cova da Iria e por um jornalista de "O Século", Avelino de Almeida. Transcrevemos o seu texto ORIGINAL (ALGUNS TERMOS ESTÃO EM DESUSO EM NOSSA LÍNGUA).
(1917-10-15, Lisboa, Avelino de Almeida enviado pelo jornal {O Século} à Cova da Iria, descreve o que presenciou no dia 13 de Outubro de 1917. Data de redação: 13 de Outubro de 1917. {Publ.:} {O Século}, Lisboa (edição da manhã) 37 (12.876) 15 Out. 1917, p. 1, cols. 6-7; p. 2, col. 1.) 

COISAS ESPANTOSAS! COMO O SOL BAILOU AO MEIO DIA EM FÁTIMA

As aparições da Virgem - Em que consistiu o sinal do céu - Muitos milhares de pessoas afirmam ter-se produzido um milagre - A guerra e a paz

{Lucia, de 10 anos; Francisco, de 9, e Jacinta, de 7, que na charneca de Fátima, conselho de Vila Nova de Ourem, dizem ter falado com a Virgem Maria} (DO NOSSO ENVIADO ESPECIAL)

OUREM, 13 de outubro - Ao saltar, após demorada viagem, pelas dezesseis horas de ontem, na estação de Chão de Maçãs, onde se apearam também pessoas religiosas vindas de longes terras para assistir ao «milagre», perguntei, de chofre, a um rapazote do «char- á-bancs» da carreira se já tinha visto a Senhora. Com seu sorriso sardônico e o olhar enviezado, não hesitou em responder-me:

- Eu cá só lá vi pedras, carros, automóveis, cavalgaduras e gente!

Por um fácil equivoco, o trem que nos devia conduzir, a Judah Ruah e a mim, até á vila, não apareceu e decidimo-nos a caminhar corajosamente cerca de duas léguas, por não haver lugar para nós na diligencia e estarem, desde muito, afreguezadas as carriotas que aguardavam passageiros. Pelo caminho, topamos os primeiros ranchos que seguiam em direção ao local santo, distante mais de vinte kilômetros bem medidos. Homens e mulheres vão quase todos descalços - elas com saquitéis á cabeça, sobrepujados pelas sapatorras; eles abordoando-se a grossos varapaus e cautelosamente munidos também de guarda-chuva. Dar-se-iam, em geral, alheados do que se passa á sua volta, n'um desinteresse grande da paisagem e dos outros viandantes, como que imersos em sonho, rezando n'uma triste melopéia o terço. Uma mulher rompe com a primeira parte da ave-maria, a saudação; os companheiros, em coro, continuam com a segunda parte, a suplica. N'um passo certo e cadenciado, pisam a estrada poeirenta, entre pinhaes e olivedos, para chegarem antes que se cerre a noite ao sitio da aparição, onde, sob o relento e a luz fria das estrelas, projetam dormir, guardando os primeiros lugares junto da azinheira bendita - para no dia de hoje verem melhor.

À entrada da vila, mulheres do povo a quem o meio já infectou com o vírus do ceticismo, comentam, em tom de troça, o caso do dia:

- Então vais ver amanhã a santa?

- Eu, não. Se ela ainda cá viesse!

E riem-se com gosto, enquanto os devotos prosseguem indiferentes a tudo o que não seja o objetivo da sua romagem. Em Ourem só por uma amabilidade extrema se encontra aposentadoria. Durante a noite, reúnem-se na praça da vila os mais variados veículos conduzindo crentes e curiosos sem que faltem velhas damas vestidas de escuro, vergadas já ao peso dos anos, mas faiscando-lhes nos olhos o lume ardente da fé que as animou ao ato corajoso de abandonar por um dia o inseparável cantinho da sua casa. Ao romper d'alva, novos ranchos surgem intrépidos e atravessam, sem pararem um instante, o povoado, cujo silencio quebram com a harmonia dos cânticos que vozes femininas, muito afinadas, entoam n'um violento contraste com a rudeza dos tipos...

O sol nasce, mas o cariz do céu ameaça tormenta. As nuvens negras acastelam-se precisamente sobre as bandas de Fátima. Nada, todavia, detém os que por todos os caminhos e servindo-se de todos os meios de locomoção para lá confluem. Os automóveis luxuosos deslizam vertiginosamente, tocando as buzinas; os carros de bois arrastam-se com vagar a um lado da estrada; as galeras, as vitórias, os caleches fechados, as carroças nas quais se improvisaram assentos vão ajoujados a mais não poderem. Quase todos levam com os farnéis, mais ou menos modestos, para as bocas cristãs a ração de folhe-lo para os irracionais que o "poverelo" de Assis chamava nossos irmãos e que cumprem valorosamente a sua tarefa... Tilinta uma ou outra guiseira, vê-se uma carrocinha adornada de buxo; no entanto, o ar festivo é discreto, as maneiras são compostas e a ordem absoluta... Burrinhos choutam á margem da estrada e os ciclistas, numerosissimos, fazem prodígios para não esbarrar de encontro aos carros.

Pelas dez horas, o céu tolda-se totalmente e não tardou que entrasse a chover a bom chover. As cordas de água, batidas por um vento agreste, fustigam os rostos, encharcando o macadame e repassando até os ossos os caminhantes desprovidos de chapéus e de quaisquer outros resguardos. Mas ninguém se impacienta ou desiste de prosseguir e, se alguns se abrigam sob a copa das arvores, junto dos muros das quintas ou nas distanciadas casas que se debruçam ao longo do caminho, outros continuam a marcha com uma impressionante resistência, notando-se algumas senhoras cujos vestidos colados aos corpos, por efeito do ímpeto e da pertinácia da chuva, lhes desenham as formas como se tivessem saído do banho!

O ponto da charneca de Fátima, onde se disse que a Virgem aparecera aos pastorinhos do lugarejo de Aljustrel, é dominado n'uma enorme extensão pela estrada que corre para Leiria, e ao longo da qual se postaram os veículos que lá conduziram os peregrinos e os mirones. Mais de cem automóveis alguém contou e mais de cem bicicletas, e seria impossível contar os diversos carros que atravancaram a estrada, um d'eles o auto-ônibus de Torres Novas, dentro do qual se irmanavam pessoas de todas as condições sociais.

Mas o grosso dos romeiros, milhares de criaturas que foram de muitas léguas ao redor e a que se juntaram fieis idos de varias províncias, alemtejanos e algarvios, minhotos e beirões, congregam-se em torno da pequenina azinheira que, no dizer dos pastorinhos, a visão escolhera para seu pedestal e que podia considerar-se como que o centro de um amplo circulo em cujo rebordo outros espectadores e outros devotos se acomodam. Visto da estrada, o conjunto é simplesmente fantástico. Os prudentes camponios, abarracados sob os chapéus enormes, acompanham, muitos d'eles, o desbaste dos parcos farneis com o conduto espiritual dos hinos sacros e das dezenas do rosário. Não ha quem tema enterrar os pés na argila empapada, para ter a dita de ver de perto a azinheira sobre a qual ergueram um tosco pórtico em que bamboleiam duas lanternas... Alternam-se os grupos que cantam os louvores da Virgem, e uma lebre, espavorida, que galga matagal em fora, apenas desvia as atenções de meia dúzia de zagaletes que a alcançam e prostram á cacetada...

E os pastorinhos? Lucia, de 10 anos, a vidente, e os seus pequenos companheiros, Francisco, de 9, e Jacinta, de 7, ainda não chegaram. A sua presença assinala-se talvez meia hora antes da indicada como sendo a da aparição. Conduzem as rapariguinhas, coroadas de capelas de flores, ao sitio em que se levanta o pórtico. A chuva cai incessantemente mas ninguém desespera. Carros com retardatários chegam á estrada. Grupos de fieis ajoelham na lama e a Lucia pede-lhes, ordena que fechem os chapéus. Transmite-se a ordem, que é obedecida de pronto, sem a mínima relutância. Ha gente, muita gente, como que em êxtase; gente comovida, em cujos lábios secos a prece paralisou; gente pasmada, com as mãos postas e os olhos borbulhantes; gente que parece sentir, tocar o sobrenatural... A criança afirma que a Senhora lhe falou mais uma vez, e o céu, ainda caliginoso, começa, de súbito, a clarear no alto; a chuva pára e presente-se que o sol vai inundar de luz a paisagem que a manhã invernosa tornou ainda mais triste...

A hora antiga é a que regula para esta multidão, que cálculos desapaixonados de pessoas cultas e de todo o ponto alheias ás influencias místicas computam em trinta ou quarenta mil criaturas... A manifestação miraculosa, o sinal visível anunciado está prestes a produzir-se - asseguram muitos romeiros... E assiste-se então a um espetáculo único e inacreditável para quem não foi testemunha d'ele. Do cimo da estrada, onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meter á terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zênite. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-ia estar-se realizando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espectadores que se encontram mais perto se ouve gritar:

- Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!

Aos olhos deslumbrados d'aquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos bíblicos e que, pálido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos fora de todas as leis cósmicas - o sol «bailou», segundo a típica expressão dos camponeses... Empoleirado no estribo do auto-ônibus de Torres Novas, um ancião cuja estatura e cuja fisionomia, ao mesmo tempo doce e enérgica, lembram as de Paul Déroulede, recita, voltado para o sol, em voz clamorosa, de principio a fim, o Credo. Pergunte quem é e dizem-me ser o sr. João Maria Amado de Melo Ramalho da Cunha Vasconcelos. Vejo-o depois dirigir-se aos que o rodeiam, e que se conservaram de chapéu na cabeça, suplicando-lhes, veementemente, que se descubram em face de tão extraordinária demonstração da existência de Deus. Cenas idênticas repetem-se n'outros pontos e uma senhora clama, banhada em aflitivo pranto e quase n'uma sufocação:

- Que lastima! Ainda ha homens que se não descobrem diante de tão estupendo milagre!

E, a seguir, perguntam uns aos outros se viram e o que viram. O maior numero confessa que viu a tremura, o bailado do sol; outros, porém, declaram ter visto o rosto risonho da própria Virgem, juram que o sol girou sobre si mesmo como uma roda de fogo de artifício, que ele baixou quase a ponto de queimar a terra com os seus raios... Ha quem diga que o viu mudar sucessivamente de cor...

São perto de quinze horas.

O céu está varrido de nuvens e o sol segue o seu curso com o esplendor habitual que ninguém se atreve a encarar de frente. E os pastorinhos? Lucia, a que fala com a Virgem, anuncia, com ademanes teatrais, ao colo de um homem, que a transporta de grupo em grupo, que a guerra terminara e que os nossos soldados iam regressar... Semelhante nova, todavia, não aumenta o jubilo de quem a escuta. O sinal celeste foi tudo. Ha uma intensa curiosidade em ver as duas rapariguinhas com suas grinaldas de rosas, ha quem procure oscular as mãos das «santinhas», uma das quais, a Jacinta, está mais para desmaiar do que para danças, mas aquilo por que todos ansiavam - o sinal do céu - bastou a satisfaze-los, a radica-los na sua fé de carvoeiro. Vendedores ambulantes oferecem os retratos das crianças em bilhetes pastais e outros bilhetes que representam um soldado do Corpo Expedicionário Português «pensando no auxilio da sua protetora para salvação da Pátria» e até uma imagem da Virgem como sendo a figura da visão... Bom negocio foi esse e decerto mais centavos entraram na algibeira dos vendedores e no tronco das esmolas para os pastorinhos do que nas mãos estendidas e abertas dos leprosos e dos cegos que, acotovelando-se com os romeiros, atiravam aos ares seus gritos lancinantes...

O dispersar faz-se rapidamente, sem dificuldades, sem sombra de desordem, sem que fosse mister que o regulasse qualquer patrulha da guarda. Os peregrinos que mais depressa se retiram, correndo estrada fora, são os que primeiro chegaram, a pé e descalços com os sapatos á cabeça ou dependurados nos varapaus. Vão, com a alma em lausperene, levar a boa nova aos lugarejos que não se despovoaram de todo. E os padres? Alguns compareceram no local, sorridentes, enfileirando mais com os espectadores curiosos do que com os romeiros ávidos de favores celestiais. Talvez um ou outro não lograsse dissimular a satisfação que no semblante dos triunfadores tantas vezes se traduz... Resta que os competentes digam de sua justiça sobre o macabro bailado do sol que hoje, em Fátima, fez explodir hossanas dos peitos dos fieis e deixou naturalmente impressionados - ao que me asseguraram sujeitos fidedignos - os livres pensadores e outras pessoas sem preocupações de natureza religiosa que acorreram á já agora celebrada charneca.Avelino de Almeida