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PAQUERAR NA IGREJA É PECADO? PDF Imprimir E-mail
Escrito por Diácono Sérgio Fontes   

Confesso para a ansiosa leitora que não sei a posição oficial, se existe, da Igreja Católica sobre o assunto namoro na Igreja. Dei até rápida folheada no CIC, mas nada encontrei. Logo, o que segue, naturalmente, é apenas fruto da experiência e reflexão deste delirante servo do Senhor.

Estávamos em plena ditadura militar. O Mosteiro de São Bento da Bahia e o Avalanches eram dois “points” da época, onde os jovens universitários que não se engajaram na luta contra o regime mas a ele se opunham, ainda encontravam espaço para se reunir, divertir, abrir o verbo e rezar.

Explicitando melhor, no Avalanches tomava-se chope e se comia pizza, ouvíamos as canções do Chico, discutíamos o último artigo do Paulo Francis no Pasquim e, claro, paquerava-se.

No São Bento, é óbvio, assistíamos às missas, tinha o grupo de jovens, o coral, a retórica desassombrada de D. Jerônimo - porta-voz dos nossos anseios de liberdade com amor em vez de armas - e a candura santa de Dom Timóteo; com uma assembléia predominantemente jovem, bonita, inteligente e culta, era inevitável: haja paquera!

Numa daquelas inesquecíveis missas, um estudante de arquitetura, futuro diácono, não conseguia se concentrar na envolvente homilia de D. Jerônimo. Uma linda morena não parava de desfechar-lhe olhares e sorrisos, deixando-o completamente aturdido. Enquanto ouvia a palavra de Deus proclamada pelo inspirado pregador, pegou sua Pentel (todo estudante de arquitetura tinha uma), desenhou um coração no folheto O Domingo, inscreveu nele um número de telefone e torpedeou a franco atiradora.

No dia seguinte ela ligou. No outro se encontraram. Com dois anos estavam casados. E Deus viu que isso era bom. A filha mais velha está com 25 e o casório já vai para 28.

Quando isso sucedeu a noção de pecado não permeava aquele santo lugar. Àquelas mentes juvenis interessava somente estar em um ambiente fraterno, onde se respirava liberdade, segurança e presença de Deus. Não se ia à Igreja para paquerar. Os namoros rolavam espontaneamente. Onde, pois, pecado?

+ + +

Estamos agora em plena era das Comunidades Eclesiais de Base. Lula é o Presidente da República. O ambiente é o gigantesco bairro do Beirú, periferia de Salvador, no qual se sobe uma ladeira e se encontra uma comunidade, desce-se a mesma e se encontra outra. Como ladeira é o que não falta na Terra de Gil, o Beirú tem pra mais de vinte comunidades.

Foi na comunidade de Santa Maria Betânia que aconteceu o que vamos contar. Em Betânia, como em toda comunidade, havia e ainda há Ministros da Eucaristia, catequese, reunião de animadores, grupos bíblicos, Pastoral da Criança e, como não poderia faltar, grupo de jovens.

O grupo Juventude Orante de Betânia (JOB) passava por uma boa fase. Em que pese ser a comunidade uma das menores da paróquia, cerca de trinta jovens se reuniam aos domingos para refletir o Evangelho, ensaiar cânticos e distribuir as atividades litúrgicas. Dentre eles destacavam-se, tanto pelo conjunto harmônico que formavam, como pela beleza individual, três moreníssimas irmãs, tipicamente baianas: Jane, Janete e Janaína. Infelizmente, as três Janes, como eram conhecidas, não gostavam de ir às missas, só ao grupo jovem.

Quando se dirigiam à Igreja, aí pelas cinco da tarde, as três tinham que passar defronte a um boteco cheio de homens, atraindo os olhares embriagados de todos eles. Eis, pois, que alguns jovens que freqüentavam o referido resolveram, convertidos pela beleza do trio eletrizante, freqüentar a Juventude Orante de Betânia. Menos de uma semana um deles, Clarisvaldo, moreno formoso e elegante, já namorava a mais bonita delas, Janete.

Já Carlinhos, “corrente” de Clarisvaldo, mas não tão atraente quanto este, não deu igual sorte com as meninas. Inobstantemente, fora eleito coordenador do grupo. Ouviram bem sim: coordenador do JOB. Quando as três Janes passavam ele engolia o copo de um gole e as acompanhava até o grupo.

Fizemos esse arrodeio todo para dizer uma coisa só: tanto as três Janes, como Clarisvaldo e Carlinhos iam à Igreja apenas para paquerar. Será que isso era correto? Vamos então resumir os fatos nada edificantes que aconteceram na gestão Carlinhos/Clarisvaldo/3Janes, para que possamos formar uma opinião:

1. Janete hoje é mãe solteira. A rapaziada só a procura para tirar uma “lasquinha”, conforme declaram. Vez em quando ela aparece em Betânia. O moleque já está com cinco anos.

2. Jane também caminhou pela mesma estrada. É “mais ou menos casada” com o pai do filho dela. Virou batista e detesta Betânia, por não a ter apoiado quando o “quase marido” a abandonou primeira vez.

3. Janaína deu mais sorte. Embora trilhando o caminho de Janete e Jane, o moço que a presenteou com uma linda menina era um bom moço. Contraíram matrimônio de reparação e hoje ela persevera na Fé, esforçando-se por atrair o maridão.

4. Clarisvaldo sumiu.

5. Carlinhos se mudou Deus sabe pra onde.

Justiça se faça que, tendo conhecimento em que pé andavam as coisas no JOB, os adultos tomaram as saneadoras providências. Em todo caso algo não andou bem em Betânia naquele breve período. Alguém pecou? Evidentemente. Quem, como e por quê é muito difícil estabelecer. Correríamos o risco de um julgamento injusto.

Como diria Santo Agostinho, Deus sabe tirar coisas boas dos erros dos homens. Assim é que, das três Janes, uma hoje é ativa animadora da comunidade; outra está em vias de se converter; a terceira bandeou para os evangélicos, cujos misteriosos caminhos só o Onisciente pode sondar. Um irmão de Clarisvaldo, Clarismundo, jamais abandonou Betânia.

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Entre aquela contestadora juventude universitária do Mosteiro de São Bento da Bahia, na década de 70, e os atuais jovens da Comunidade de Santa Maria Betânia do periférico bairro do Beirú existe um abismo (comparável ao existente entre o Seio de Abraão e o Inferno) social, econômico, cultural e religioso, depondo em favor dos meninos e meninas de Betânia.

Paira, então, sem resposta a pergunta/título desta reflexão: paquerar na Igreja é pecado?

Ensina-nos a Igreja:

· Para que haja pecado concorrem simultaneamente três fatores:

1. A liberdade para cometê-lo;

2. A consciência de que o está cometendo;

3. E a vontade de realizá-lo.

Na mesma linha, diz o Catecismo da Igreja Católica (CIC): “É pecado mortal todo pecado que tem como objeto uma matéria grave, e que é cometido com plena consciência e deliberadamente” (1857).

Dito tudo isso consideramos tudo dito. O critério, pois, é sua própria consciência cara leitora. Se você vai à Igreja movida pelo santo desejo de se encontrar com Deus e com seus irmãos; lá conhece, casualmente, o rapaz de seus sonhos e com ele trava os primeiros contatos (paquera?); o namoro que daí porventura surgir é abençoado por Deus. Quem sabe não será uma bênção, quiçá uma graça ou feed-back às suas orações?

Se, contrariamente, você vai à Casa do Senhor com o único e determinante objetivo de arrumar um namorado, já pecou antes de ir. Caso o objetivo seja apenas “ficar”, tanto pior.

Se pensaram que me havia esquecido de vocês estão enganados: tudo é válido também para os rapazes. (Risos).

Diácono Sérgio Fontes

Salvador – BA

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N. do A. – A matéria acima é pura ficção. Alguns locais são verdadeiros, outros não; alguns nomes e situações são reais, outras não. Tá tudo embolado.